Eu escolhi, ou melhor, o ciclismo de ultradistância me escolheu há 4 anos, quando, despretensiosamente, me inscrevi para o sorteio de uma inscrição para o BikingMan Brasil, prova de 1.000 km que teve sua primeira edição no Brasil em 2021. Para aumentar e incentivar a participação feminina, a Victória de Sá, junto com o Drop SP, fizeram um sorteio, e eu ganhei.
Me preparei com as ferramentas que eu tinha na época (não eram muitas) e me joguei de cabeça nessa aventura. Eu e poucos fomos finisher dessa edição. E eu saí dessa experiência totalmente transformada.
Muito além de uma cicloviagem
Eu lembro até hoje da sensação que tive no dia seguinte, ao acordar daquilo que, para mim, parecia um grande bikepacking, mas que, na verdade, era um feito gigantesco, muito além de “somente” uma cicloviagem. Só fui me dando conta disso com o passar dos dias, com as coisas que foram acontecendo na minha vida.
De repente, eu descobri uma força dentro de mim que eu não sabia que existia. E não estou falando somente de força física. Na verdade, uma ultra representa muito mais força mental.
É lidar com dores, adversidades e pensamentos ruins o tempo todo. É sair totalmente da zona de conforto. É encontrar prazer nos momentos em que tudo parece doer e, mesmo assim, continuar. É encontrar beleza no caminho e, depois da linha de chegada, descobrir que somos capazes de muito mais.
O ultra como aventura — e controle
De 2021 até hoje, eu sempre encarei as ultras que corri dessa maneira: como uma grande aventura, um “bikepacking race”, mas sempre dormindo, reservando as hospedagenspreviamente e mantendo tudo o que eu podia sob controle.
Eu sou uma pessoa que ama planejar, organizar e dar check nas caixinhas.
Mas este ano eu resolvi me desafiar de uma forma diferente.
Across Andes: o desafio de ir além
Larguei para a Across Andes, no Chile — 800 km, 12.000 metros de altimetria, com tempo limite de 130 horas — com o objetivo de testar meus limites de sono e, principalmente, minha tolerância ao desconforto.

Semanas antes da prova, verbalizei essa decisão para meu treinador, minha nutricionista e para pessoas próximas. Toda vez que falava sobre isso, sentia um frio na barriga acompanhado de pensamentos autossabotadores: “Mas quem você pensa que é para querer fazer isso?”
As metas eram claras: ser finisher. Se estivesse bem, buscar um top 10 feminino. E, se tudo corresse como planejado, concluir em menos de 72 horas.
A largada e a força das palavras
Conforme os dias que antecedem a prova foram passando, o frio na barriga aumentava, mas, ao mesmo tempo, eu me sentia forte e capaz de colocar esse plano em prática. O dia da viagem chegou. Eu me programei para chegar em Pucón, cidade da laragda, quatro dias antes, para diminuir os riscos de atraso de bagagem ou qualquer outro problema. Eu queria ter tempo para resolver.
Os social rides foram acontecendo, fui conhecendo aos poucos as outras pessoas que iriam correr, os amigos do Brasil foram chegando e, antes da largada, veio a notícia: seríamos mais de 200 atletas e, na categoria solo feminino,que era a minha, 38 mulheres. Eu fiquei em êxtase. Que sonho correr com tantas mulheres! Nem em provas mais curtas eu tinha corrido com tantas na mesma categoria que eu. Foi demais.
E, ao mesmo tempo, foi aumentando aquela ansiedade e a dúvida se eu era capaz.
Dia 23 de novembro, às 8h, foi a largada. Daquele momento em diante, minha ansiedade foi diminuindo até não existir mais. Logo na largada, eu estava lado a lado com a Lili, uma amiga de BH, e de repente ela começou a falar:
“Jéssica, você tem uma força aí dentro que não imagina. Não pensa nas outras, não se deixe intimidar por fulana ou ciclana. Você pode, você é capaz.”
E essa mensagem entrou na minha mente de uma forma muito intensa.
Eu aproveitei demais o caminho.
A natureza como aliada

A região da Araucanía, onde a rota foi desenhada, contava com 8 vulcões e 7 lagos no percurso.
A todo momento eu me surpreendia e sentia a força da natureza me dizendo: você pode, estou com você.

No primeiro dia, eu pedalei até o km 200, com somente 15 minutos de parada para repor água. A suplementação foi ajustada, o ritmo constante, deu tudo certo, Foi minha primeira grande pausa: um prato de comida e um momento mais relax. Trinta minutos.

Já era tarde, quase 7 da noite, e depois desse momento o dia foi caindo. A noite chegou com muitas adversidades: frio, sono… muuuito sono. O ritmo diminuiu muito.
Ainda pedalei até o km 317, onde fiz uma pausa de 40 minutos para dormir, no chão mesmo, em um hospital, que era o único lugar abrigado e aberto na cidade de Lonquimay.
Tive companhia nessa noite, e isso ajudou muito a não desanimar.

Descanso, reencontros e retomada
No dia seguinte, pedalei mais 20 km, uma serra longa e super inclinada, até chegar ao lugar onde eu queria ter ido na primeira pernada, se não tivesse diminuído tanto o ritmo: o Lodge Alpina.
Ali pude fazer a segunda refeição até então na prova, tomar um banho e dormir em uma cama propriamente dita.
Foram 1h30 de sono. Acordei às 10h30 para seguir. Eu não sabia que essa pequena pausa de sono me regeneraria tão bem. Acordei parecendo nova e pronta para seguir em frente.
Quando estava saindo da cabana para arrumar as coisas na bike eu vejo a Vicky, a Victoria que foi quem sorteou a inscrição lá em 2021 e uma das minhas grandes inspirações no ciclismo, me emocionei em ver que estava no mesmo ponto da minha grande referência feminina na bike.
Nesse segundo dia, fui até o km 537. Foi um dia longo, cheio de trechos técnicos. Tive que caminhar alguns quilômetros e fiquei longas horas sem água.
Era muito inóspito.
Consegui deitar em uma cama e tomar um banho às 2h da manhã do terceiro dia, após pedalar direto esses 200 km.
Me permiti dormir 3 horas e ali descobri que estava muito bemna disputa feminina, sempre variando entre o 5º e o 6º lugar.

Meu corpo já mostrava sinais de muito cansaço e as assaduras começaram a me atrapalhar. Por chegar muito tarde e sair muito cedo, mais uma vez fui dormir e acordei sem uma refeição. Tomei somente duas doses reforçadas de whey antes de deitar.

Os últimos quilômetros e os imprevistos
No dia seguinte, quando saí, estava motivada a ir até a linha de chegada: faltavam 270 km.
Muito calor, mas com um gravel melhor de pedalar, fui pouco a pouco vencendo todos os obstáculos: desidratação, diarreia (uma empanada me derrubou), cansaço.
Quando me dei conta, faltavam 120 km para terminar.
Eu estava em uma rodovia calma, próximo a Neltume. Um lago impressionante e um vulcão imponente compunham a paisagem, até que… um cachorro me atacou. Não cheguei a cair da bike, mas me desestabilizei muito emocionalmente.
Como pode?
Um ser que eu amo tanto, nesse estado de cansaço, me atacar dessa forma?
Eu só pensava: “eu não mereço isso, não mesmo”
“E agora? Será que posso continuar? Preciso tomar a vacina antirrábica.”
Até que, cerca de uma hora depois, encontrei um carro da organização, que fez toda a limpeza do ferimento e me disse que eu poderia seguir pedalando e tomar a vacina na cidade após a chegada. Fiquei muito feliz com a notícia, e isso me deu um baita gás para continuar.

Quando o cansaço encontra a determinação
Quando cheguei à cidade de Panguipulli, faltando cerca de 100 km para Pucón, fiz minha última refeição sólida. Comi um pãozinho simples, sem nada, com receio de passar mal novamente. Peguei outro para levar e pensei:
“Bom, nesse ritmo que estou… são 6 da tarde… até 1h da manhã, no máximo, eu chego.”
Mal sabia eu quais seriam as condições do terreno dali em diante: subidas duríssimas, muita pedra solta e um trecho extremamente travado. O pedal simplesmente não rendia, apesar de toda a vontade de chegar. Afinal, o que eram mais 100 km para quem já tinha pedalado 700?
Respirei fundo mais uma vez e foquei no próximo objetivo: chegar a Villarrica, cidade que ficava a 32 km da linha de chegada. Quando cheguei lá, liguei para o Rafa, dizendo que queria dormir um pouco. Ele me incentivou a seguir direto — e, racionalmente, não fazia mesmo sentido parar. Eu estava muito perto. Ainda assim, o medo de virar mais uma noite, com sono e completamente sozinha, me acompanhava. Naquele último dia, não tive companhia em momento algum.
Pare em um posto de gasolina e comi um completo, o cachorro-quente típico chileno, com salsicha, pão, tomate e palta (avocado). Comi devagar, tomei um refrigerante e, com o coração aquecido por finalmente comer algo que eu desejava tanto, segui em frente.
O caminho, já à noite, parecia uma montanha-russa: um asfalto que subia e descia o tempo todo. Muitos, muitos cachorros surgiam pelo caminho, e eu os afastava com a lanterna de cabeça. Até que, faltando cerca de 10 km para chegar, liguei para o Rafa para acordá-lo e pedir que fosse me receber.
A chegada e a transformação
Nesse momento, algo mudou. Uma força que parecia vir de outro lugar apareceu.
Comecei a pedalar muito rápido, a subir em pé, totalmente focada.
Eu só mentalizava a chegada e chorava de felicidade por estar ali.
Foi um momento incrível. Cheguei às 3h da manhã, com cinco horas a menos do que era meu objetivo inicial, em 7º lugar na minha categoria, com a sensação de ser a Mulher-Maravilha.
Ter o Rafa me esperando com tanto carinho na chegada tornou tudo ainda mais especial.


O que o ultra deixa
Eu saio dessa experiência com o sentimento de que posso tudo. De que conquistei algo grandioso. E, com certeza, essa conquista se deve ao trabalho duro de treinos e dedicação que tive nesse ano de 2025, um ano em que me olhei com carinho, cuidei de mim e acreditei que eu posso mais.
Esse tipo de experiência é muito valiosa. Eu converso com muitas pessoas do ultra que sentem o mesmo.
É muito mais do que somente uma prova: é uma experiência de vida.
E eu sou grata a todos que estão ao meu lado, me apoiando nessa caminhada.
2026 tem muito mais.

